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Diversidade e Representatividade na Computação

By Daniela Favero5 min read

Menos de 20% dos diplomas em ciência da computação e engenharia vão para mulheres. Ouço essa estatística desde que escolhi meu curso na faculdade. Quando cheguei pela primeira vez na sala de aula no Instituto de Matemática e Estatística da USP em 2018, a realidade era mais assustadora ainda: dos 60 calouros da ciência da computação, só 6 eram mulheres. A proporção incômoda levanta consigo a pergunta: por que as mulheres não estão escolhendo cursar computação?

Ada Lovelace, matemática considerada mãe da ciência da computação Ada Lovelace, matemática considerada mãe da ciência da computação

Mulheres como cuidadoras emotivas, homens como seres lógicos

Uma explicação comum para a escassez feminina na computação é a ideia de que as mulheres simplesmente não querem estar ali, afinal a escolha de uma carreira parece quase que 100% dependente da estudante. Mas sabemos que nenhuma decisão depende apenas do indivíduo: pais, professores e colegas — todos, de alguma forma — acabam reforçando a ideia de que essa é uma área feita para homens.

Desde muito cedo, as meninas aprendem com os exemplos de dentro de casa e da mídia: a mulher é cuidadora nata, com alta sensibilidade, perfeita para exercer funções mais humanas e comunicativas ou de saúde pública (isso quando o estereótipo já não delega à mulher apenas a função de mãe e dona de casa). Já os meninos entendem que homens são seres racionais e altamente capazes de tomar decisões importantes por meio de análises numéricas, sem emoções no caminho.

Os papéis de gênero já começam a ser exercitados com brincadeiras de criança: meninas brincam de boneca e de casinha, meninos brincam de blocos de montar e de videogame. E é fácil culpar uma menina por escolher a nova Barbie princesa-sereia em vez de um Playstation, afinal, foi o que ela escolheu e insistiu persistentemente para ganhar de aniversário. Mas é muito desonesto atribuir a uma criança toda a agência para escolher suas brincadeiras. Nas propagandas na televisão, o apelo para cada brinquedo é direcionado a um gênero; e ao conviver com esses estereótipos desde pequena, sempre há estranhamento e desaprovação das amigas da escola e dos pais. Existe uma expectativa sendo colocada até mesmo no ócio das garotas desde quando elas ainda são muito novas.

O estereótipo de nerd genial

Personagens da série de televisão The Big Bang Theory que retratam muito bem o estereótipo de nerd genial Personagens da série de televisão The Big Bang Theory que retratam muito bem o estereótipo de nerd genial

Para além disso, a ciência da computação carrega um estereótipo muito explorado na mídia: o de “nerd genial”. Um homem que vive de código, isolado, obcecado por tecnologia até o ponto de perder um pouco do tato social. É uma imagem que até funciona para alguns, mas que exclui muitos outros, e quase sempre exclui as mulheres. Frequentemente, mulheres precisam vestir roupas (figurativamente e literalmente!) e inclinar seus gostos pessoais para aquilo que se encaixa na expectativa social do que é um programador.

E se uma mulher não é capaz de fazer isso, é muito fácil desenvolver síndrome do impostor: a medida em que não se encaixa, ela acha que não é boa o suficiente. Nas palavras de uma graduanda em ciência da computação na universidade Carnegie Mellon, “Oh meu Deus, isso não é pra mim. (…) Eu não sonho em código como eles sonham”. E quando quase não há mulheres no ambiente, a sensação de não-pertencimento só aumenta. Quem entra precisa carregar o peso de provar o tempo inteiro que merece estar ali, o que acaba sendo muito desgastante.

Na minha experiência pessoal, vi muitas mulheres assumindo papéis para além de suas zonas de conforto para reforçar sua existência no IME-USP. Algumas batalham para serem ouvidas em trabalhos em grupo, outras assumem uma postura mais grosseira para repelir qualquer desrespeito. Mas a maioria segue em silêncio, existindo, mas ainda com uma persistente impressão de que não deveria estar ali.

O choque na faculdade é grande, mas por que a maioria das mulheres nem está chegando ali? A realidade é que no ensino médio, meninas já carregam a sensação de que não têm “o dom” ou “a genialidade” necessários para seguir na computação. É justamente nessa fase que a escolha da carreira acontece. Se elas não encontram referências diferentes, se não enxergam que a área pode ser múltipla, criativa, colaborativa, elas simplesmente não entram. E o ciclo se repete: com menos mulheres na área, o estereótipo ganha força, e cada vez menos meninas conseguem se enxergar nesse espaço.

Aí está a importância de diversificar os estereótipos: não precisamos eliminar o nerd apaixonado por código, mas precisamos mostrar outras formas de existir dentro da computação. Cientistas criativos, colaborativos, engajados socialmente. Esse leque mais amplo pode fazer diferença. Prova disso: universidades como Carnegie Mellon e Harvey Mudd aumentaram de 10% para 40% a participação feminina em cinco anos ao mudar a forma de apresentar a área. Ou seja, mudar a imagem e percepção coletiva do curso funciona, e revela que há uma porção de alunas que poderia se interessar pela carreira.

Ada Lovelace e tantas outras

O argumento fica ainda mais evidente se olharmos para a história: a computação não nasceu masculina. No passado, quando computadores eram usados para cálculos e tarefas consideradas repetitivas, grande parte das profissionais da área eram mulheres. Há exemplos históricos de mulheres que mudaram o rumo da ciência da computação: Ada Lovelace, Grace Hopper, tantas outras. Até os anos 1980, os cursos de informática eram cheios de mulheres, em parte porque elas vinham de formações semelhantes, como a matemática (um curso com muitas mulheres).

Primeira turma de graduados no curso de Ciência da Computação do IME-USP em 1974, mostrando um grupo de estudantes onde as mulheres são a maioria Imagine a minha surpresa ao ver a imagem acima, com a primeira turma de graduados no curso de Ciência da Computação do IME-USP, em 1974, na qual as mulheres eram a maioria. 40 anos depois, somos apenas 10%.

Foi quando a computação ganhou valor econômico que tudo mudou: a partir de 1984, os computadores pessoais começaram a ser atribuídos ao uso masculino e, por consequência, junto com os videogames, divulgados como brinquedos para meninos. Então, progressivamente, a lógica e a aptidão (ou a “genialidade”) para a tecnologia passaram a ser vistas como qualidades masculinas. A consequência é visível até hoje: no Brasil, apenas 20% dos profissionais de TI são mulheres, segundo o IBGE.

A virada da área de predominantemente feminina para predominantemente masculina prova que o perfil não é fixo. Portanto, se foi construído assim, também pode ser reconstruído. E o desafio central é justamente esse, o de quebrar a sensação de não-pertencimento. O estereótipo do nerd genial pode continuar existindo, mas não pode ser o único. Quando é o único, ele sufoca. Ele cria impostores. Ele afasta talentos.

E por que essa discussão é tão importante? A área de tecnologia tem algumas das posições mais bem remuneradas no mercado de trabalho atualmente. Esses profissionais ocupam cargos que exercem muito poder numa sociedade tão dependente dos computadores. Diversificar a imagem do cientista da computação não é apenas uma questão de justiça, mas também uma forma de pensar o futuro da própria área, e de todos os usuários impactados pelo nosso trabalho. Quanto mais olhares diferentes, mais soluções criativas e diversas, com maior responsabilidade social.

Um trabalho de formiguinha

Entendo que ainda há muito trabalho pela frente para melhorar a diversidade e a representatividade femininas na computação. Para matar o mal pela raiz, vale a pena investir bem onde as meninas decidem suas trajetórias: no ensino médio. É ali que elas precisam ver que computação não é território exclusivo e que há sim espaço para elas. Se mudarmos a forma como apresentamos a área, podemos abrir portas que hoje parecem fechadas. Mais do que isso, podemos devolver à computação algo que ela já teve no início da sua história: as mulheres como protagonistas.

Referências